O Fascínio das Plantas

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Maria Amélia Martins-Loução Professora Catedrática da Universidade de Lisboa | 19/05/12 | Lisboa

Celebrou-se ontem, 18 de Maio, o dia do Fascínio das Plantas. Foi lançado, pela primeira vez este ano, sob a chancela da European Plant Science Organization (EPSO), tendo sido promovido em Portugal pela Sociedade Portuguesa de Fisiologia Vegetal. De acordo com os dados da EPSO, Portugal é o segundo país onde maior número de instituições aderiram a esta iniciativa, seguido pelo Reino Unido. Qual o motivo desta celebração a nível europeu ao qual inúmeros outros países da América Latina se juntaram? Precisamente para mostrar ao público em geral porque é que existem cientistas que se fascinam com as plantas, a sua beleza, o que nos proporcionam e nos possibilitam. A vida na Terra não seria possível sem plantas.

Foi há 3500 milhões de anos que se deu a maravilhosa invenção da fotossíntese e há 450 milhões de anos as plantas conquistaram os continentes não deixando de evoluir desde então. Mas porque é que elas são assim tão fascinantes? São as plantas que estão na base da cadeia trófica dos ecossistemas uma vez que fornecem o alimento e a energia para os animais se alimentarem e sobreviverem. São também as responsáveis por manter uma atmosfera rica em oxigénio e por controlar os níveis de CO2 e, consequentemente, por regular o clima a nível local e global.

Um dos maiores desafios do século é conciliar as necessidades alimentares de uma sociedade em crescimento com a diminuição dos impactos ambientais da actividade produtiva. Hoje, 1 em cada 7 pessoas não tem acesso a alimento ou sofre de má nutrição crónica. O aumento da produtividade agrícola pode envolver extensão ou intensificação. A extensão é responsável por grande parte das desflorestações, alteração da paisagem e erosão dos solos. Actualmente a agricultura ocupa cerca de 70% da pradaria, 50% da savana, 45% da floresta temperada e já, 27% da floresta tropical. A intensificação causa degradação da qualidade da água, consumo de energia, poluição difusa, perturbação dos ciclos do azoto e do fósforo e alteração dos habitats naturais. Nos últimos 50 anos a área de regadio duplicou e o uso de fertilizantes aumentou 600%.

Os objectivos do Desenvolvimento do Milénio lançados pelas Nações Unidas em 2010, e da Europa 2020 são bem claros: desenvolver uma agricultura sustentável, baseada em plantas mais eficientes que produzam mais com menos água e fertilizante. Isto requer maior investigação, maior dedicação a estudos de fisiologia e conhecimento sobre a biologia das plantas.

Nas últimas décadas, verificou-se que os jovens mostravam um desinteresse global pela ciência e pela botânica, em particular. Urge inverter estas estatísticas promovendo e atraindo mais jovens cientistas para áreas tão nucleares como a biologia vegetal e levando o fascínio pelas plantas e pela sua diversidade a jovens em idade escolar.

 A Europa tem envidado esforços no sentido de promover práticas pedagógicas que estimulem o interesse para a ciência e alertar, em particular, para os problemas globais a que assistimos. O ensino activo (método IBSE – Inquiry Based Science Education) ajuda à reflexão e é, actualmente, considerado elemento-chave para desenvolver a literacia científica dos alunos. Isto porque leva os formandos a colocar questões sobre ciência, permitindo aumentar a percepção de fenómenos e a compreensão de conceitos científicos. Este método oferece ambientes estimulantes para os jovens explorarem a sua aprendizagem em situações reais. O conhecimento é construído através do teste de hipóteses, da discussão com os professores e colegas, e com uma interacção directa com os fenómenos científicos. Ao promover uma abordagem prática o método IBSE pode levar a uma compreensão dos conceitos científicos, porque estimula igualmente a aprendizagem fora de aula, ou seja a educação não formal. No âmbito de um projecto europeu, o Jardim Botânico do Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa tem vindo a desenvolver oficinas de formação e planeia envolver, ao longo de 2 anos, mais de 50 professores e 900 estudantes no método IBSE. Como instituição científica, de reconhecido mérito internacional, o Jardim Botânico da Universidade de Lisboa tem permitido atrair inúmeros professores e jovens para temas relacionados com a biodiversidade, o papel das plantas nas alterações globais e as práticas de conservação.

Neste dia internacional do fascínio das plantas importa reflectir que se queremos preparar o futuro teremos de precaver o presente, investindo na formação de jovens e despertando a sua atenção para a beleza e o mistério que as plantas encerram. Para isso os professores nas escolas devem saber usar as novas práticas pedagógicas e apoiar-se na educação não formal. Importa ainda interiorizar que, em pleno século XXI, os Jardins Botânicos não são já apenas locais de fruição, que nos mostram plantas diferentes vindas de outros países ou onde se cultivam plantas exóticas. São antes instituições científicas responsáveis pelo estudo da botânica, a conservação dos recursos genéticos e a promoção da ciência. Através deles e com os seus investigadores convidamos todos que nos visitam a sentir o fascínio pelas plantas.

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