Novos desafios para a educação - organização escolar

Maria Amélia Martins-Loução | 03/09/12 | Lisboa, Portugal

O calor do Verão e as férias aproximam-se do fim. É tempo de voltar ao trabalho, assumir novos desafios e, sobretudo, encarar com esperança o ano escolar que se aproxima. “Estudar e aprender” deve ser o lema para o desenvolvimento pessoal e, consequentemente, para o desenvolvimento em geral. O Ministério da Educação e Ciência estabeleceu metas curriculares anuais e objetivas, dando liberdade aos professores e escolas para as organizar e aplicar de modo mais eficiente, desde que no fim do ano os objetivos tenham sido executados. Estes “corredores de liberdade” devem ser bem aproveitados. É tempo de aumentar a qualidade e promover formas de ensino mais apelativas e duradouras. No mundo em que a tecnologia impera, importa combater o seu uso como forma de facilitismo, de procura de conhecimento sem estudo e sem esforço. Pelo contrário, deve-se demonstrar aos jovens que a tecnologia é uma ferramenta passível de ser usada em prol do saber, do saber fazer, do saber viver com os outros, do inovar e que potencia a aprendizagem. Mas que não pode substituir nem o estudo, nem a observação e a procura da compreensão da natureza.

A separação das disciplinas e a falta de organização metodológica entre professores devia ser discutida nas escolas e cada vez mais diluída. As matérias não são estanques. Lucram, antes, se forem interligadas: a biologia não pode ser compreendida sem fundamentos de física e química, da matemática para o desenvolvimento do raciocínio lógico e do português para a expressão e transmissão de conhecimentos. O estudo seria assim facilitado por ser baseado na compreensão e não apenas na memorização.

Em termos de organização escolar, para além da preocupação de seguir programas e atingir metas curriculares, seria importante que as escolas enquadrassem a possibilidade de levar os jovens a visitar jardins botânicos, museus onde a oferta pedagógica é rica, diversificada e complementar dos programas escolares. As visitas de estudo, desde que devidamente concebidas, bem planeadas e seguidas, oferecem oportunidades de aprendizagem que podem constituir um valor adicional ao ensino em contexto escolar. E se nesse planeamento forem incluídos diferentes professores, o conhecimento será mais duradouro, racional e mais simplificado o estudo em casa. Qual o jovem que não fica marcado por umas horas fora da escola onde a vivência de coisas novas lhe abre horizontes e interesses escondidos por matérias antes odiadas e mal compreendidas?

A experiência que o Jardim Botânico do Museu Nacional de História Natural e da Ciência — Universidade de Lisboa — obteve este ano com a oficina de formação sobre a aplicação do método de aprendizagem ativa (IBSE — Inquiry Based Science Education) no ensino da biodiversidade teve repercussões muito positivas tanto a nível do sucesso escolar, como na mudança de atitude dos estudantes perante o ensino das ciências.

Esta oficina contou com a participação de 20 professores do 2.º e 3.º ciclo do ensino básico de escolas públicas e privadas da região metropolitana de Lisboa, região centro e Alentejo, e decorreu de 21 de Janeiro a 28 de Abril. Durante este largo período os professores foram motivados para aplicar a metodologia IBSE aos seus alunos em sala de aula e saber usar instituições

como o Jardim Botânico, para lecionar matérias relacionadas com a biodiversidade, a sua sustentabilidade e conservação em contexto de mudança climática global. 

Nalgumas escolas professores, da mesma disciplina ou de outra, foram envolvidos e motivados para participar de forma ativa na aplicação do método, contribuindo de forma transversal e integradora para o desenvolvimento de planos de aula e para o despertar da curiosidade dos estudantes. O entusiasmo e motivação na pesquisa “contaminaram” alguns pais que, de forma ativa e consciente, se envolveram nas atividades que os professores ofereceram após o término da formação.

No fim do ano letivo verificou-se um aumento do sucesso escolar dos estudantes de certos agrupamentos envolvidos. Mas mais importante foi a mudança de atitude. Os professores sentiram-se mais motivados por terem conseguido despertar a curiosidade dos seus alunos e o seu interesse pelo estudo, vontade em colocar questões e capacidade de pesquisa. Acima de tudo, conseguiram transmitir que está neles, jovens estudantes, a capacidade de procurar resolver e solucionar as questões que eles próprios levantam. Não é isto que se pretende, quando se fala em maior e melhor educação? Podia ser este um dos desafios metodológicos a colocar a todo o ensino? Provavelmente não. Mas isso não deve impedir que escolas, professores e associações de pais reflitam e discutam a possibilidade de aplicar o método IBSE como estratégia científica, em prol da melhoria do nível de formação dos nossos jovens.

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