Jardins Botânicos, os Fiéis Guardiões da Diversidade Vegetal

Botânica | Biodiversidade

Por Gisela Gaio-Oliveira (goliveira@museus.ul.pt) Fotografias de José Cardoso | 10/02/12 | Lisboa

O jardim botânico do Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MNHNC) representa um oásis numa Lisboa movimentada e barulhenta. Mas a sua missão vai muito para além do espaço de descanso e lazer, como o comprovam as quase 1500 espécies de plantas aí existentes.

Ao entrar no jardim botânico do MNHNC, em Lisboa, é impossível não reparar na enorme figueira australiana e no chão coberto de pequenos figos. Apesar do seu porte majestoso de árvore centenária, este exemplar comprova a fama de estranguladora da espécie: um buxo ao seu lado, já sem vida, foi vítima das raízes aéreas da figueira.

Inesquecíveis são também os míticos dragoeiros, originários das Canárias, que por se pensar que tinham sangue de dragão com propriedades medicinais, se encontram atualmente em risco de extinção. O cipreste-dos- pântanos dos EUA é paragem obrigatória, com as suas raízes a brotar do chão em busca de oxigénio, a fazer lembrar um vasto presépio.

Mas talvez a imagem de marca do jardim sejam as palmeiras vindas de todas as partes do mundo, compondo uma das maiores coleções da Europa de palmeiras ao ar livre. Ireneia Melo, diretora do jardim botânico, destaca a diversidade de plantas aqui existente: “É possível dar a volta ao mundo, percorrendo os quatro hectares do jardim e conhecendo espécies raras e outras muitas vezes já extintas nos locais de origem”.

A atenção é desviada para a coleção de cicadófitas, plantas primitivas que existem no planeta desde o tempo dos dinossáurios e que estão atualmente ameaçadas. Este é um problema incontornável: a sobrevivência das plantas encontra-se em perigo como nunca antes tinha acontecido. “O papel mais importante dos jardins botânicos é, sem dúvida, o da conservação dos recursos genéticos”, refere Ireneia Melo. “Quando uma espécie está ameaçada na natureza, faz-se a sua propagação no jardim botânico, para se introduzir posteriormente num local onde o conjunto das condições seja melhor para a sua sobrevivência”.

Maria Amélia Martins-Loução, professora universitária e coordenadora científica do banco de sementes do jardim botânico, realça a importância da investigação que é feita neste tipo de instituições: “Através da investigação é possível dar indicações precisas sobre as causas da extinção de uma espécie. Este conhecimento serve para minimizar os riscos de extinção na natureza e para definir estratégias de conservação”. Ações como esta são feitas em colaboração com outros jardins botânicos, através de redes internacionais.

OS JARDINS BOTÂNICOS NO MUNDO

A organização Botanic Garden Conservation International (BGCI), com sede no Reino Unido e que congrega jardins botânicos de todo o mundo, é atualmente a maior rede internacional para a conservação das plantas. “A BGCI trabalha com os jardins botânicos para assegurar a diversidade das plantas para o bem estar da humanidade e do planeta. Nós unimos os jardins botânicos de todo o mundo, partilhamos boas práticas e desenvolvemos projetos ligados à conservação das plantas e à educação ambiental”, afirma Sara Oldfield, secretária geral da BGCI. “Uma das missões dos jardins botânicos é a de demonstrar a importância da diversidade vegetal. Continua a ser um desafio para estas instituições fazê-lo de uma forma inovadora”, conclui.

A educação ambiental tem um papel central na conservação das plantas: um dos objetivos da Estratégia Global para a Conservação das Plantas (GSPC), assinada por 118 países das Nações Unidas, incluindo Portugal, é o de promover a educação e sensibilização para a diversidade vegetal, através dos mais de 3000 jardins botânicos espalhados pelo mundo. “Muitos jardins botânicos estão a desafiar as pessoas a mudarem a sua forma de pensar”, afirma Julia Wilson, diretora dos programas educativos da BGCI, “e isto é feito através de programas de educação e de conservação, que envolvem as comunidades locais. Para além do conhecimento científico, os jardins botânicos oferecem um novo paradigma para podermos viver de uma maneira mais sustentável”.

O jardim botânico do MNHNC, que celebrou recentemente o seu 133o aniversário, alberga atualmente quase 1500 espécies de plantas. “Não se pretende apenas manter determinada coleção, mas também tentar aumentar a diversidade das espécies, identificá-las corretamente e colocá-las no local mais indicado, para que sirvam a demonstração botânica e para que através delas se possam abordar os graves problemas da conservação a nível mundial e local”, refere Ireneia Melo.

Também o jardim botânico do MNHNC não escapou aos tempos de crise que se vivem em Portugal. “Só por milagre é possível manter o jardim”, afirma Ireneia Melo. ”É preciso recuperar estufas, caminhos, gradeamentos e lagos. Com pessoal em número insuficiente não é possível cultivar as espécies em viveiro nem tratar do enriquecimento de certas coleções”, conclui. A solução pode passar por ações de mecenato, como aconteceu com a nova sinalética interpretativa, financiada pelo Programa de Responsabilidade Social, das seguradoras do grupo Caixa Geral de Depósitos.

Mas a situação financeira difícil do jardim botânico do MNHNC não é única: “Muitos jardins botânicos da Europa, e não só, estão a sentir o impacto da situação económica global, apesar de não haver ainda uma quantificação dessas dificuldades”, refere Sara Oldfield. A secretária geral da BGCI mantém, no entanto, o optimismo: “Apesar de tudo, tem vindo a aumentar a procura dos jardins botânicos, como refúgios naturais a visitar, mesmo em tempos de dificuldades financeiras”, refere.

Para lá da crise, as coleções existentes nos jardins botânicos continuam a encantar quem visita o jardim, seja por lazer ou por motivos relacionados com a investigação botânica. “Os jardins botânicos estão intimamente ligados às localidades onde estão inseridos e assumem um papel essencial ao fornecer um espaço onde as pessoas podem relaxar, mas também aprender e debater assuntos relacionados com as plantas”, refere Julia Wilson.

Ireneia Melo partilha a sua visão do jardim botânico, a que se dedica há quatro décadas: “A diversidade das plantas existentes, a sua sábia distribuição ao longo de canteiros e caminhos, o tamanho que adquiriram ao fim de mais de um século, tudo se combina para criar uma atmosfera única, um espaço que nos transporta para fora da cidade, um local onde muitas vezes se pode ‘ouvir’ o silêncio”.

comentários

Não existem comentários. Seja o primeiro a comentar através do formulário abaixo.
Quer comentar? Você precisa entrar ou se registrar nos INQUIRE

login_sign_in      login_join

Acessibilidade

              

apoiado por

  Share on Facebook